Desrespeitos e Preconceitos

Aos sete anos de idade, fui estudar na Escola Emilio Massot, por ser perto da minha casa, como todos me conheciam, me chamavam de negra batuqueira.

Como eu chorava muito, minha mãe me tirou da escola, quando acabei perdendo o ano.

No ano seguinte, fui matriculada em uma escola bem longe da minha casa, chamada Escola José do Patrocínio. Quando era frio demais ou chovia muito, eu não ia para a aula, nessa época perdi outro ano escolar.

Ainda na década de 40, quem mandava naquela região eram os padres. Por isso, minha mãe foi falar com o padre sobre o que me aconteceu na Escola Emílio Massot, pois já havia perdido dois anos escolares, para ver o que poderia ser feito para que eu pudesse voltar para essa escola, que era mais perto da minha casa.

Então o padre foi falar com a diretora da escola pedindo ajuda quanto à discriminação. Acabei sendo rematriculada e a discriminação diminuiu.

Como eu já contei, sobre a influência do padre sobre a comunidade, o que acontecia também, no mês de maio, na época da festa do divino espírito santo, era que o padre visitava as casas levando a bandeira do divino, e com ele, ia um grupo de pessoas da igreja. A bandeira era vermelha com uma pombinha prateada no meio e outra na ponta do mastro e fitas coloridas.

Quando o padre vinha na altura da igreja do pão dos pobres, com todos os adeptos, trazendo a bandeira, soavam clarins e soltavam fogos em comemoração. Graças a isso, nós tínhamos como saber que o padre estava chegando e começávamos a esconder todos os axés como milho, quartinhas, etc.

Normalmente eram os acompanhantes do padre que entravam nas casas, mas quando eram casas de batuque, era o padre que entrava. Ele passava por toda a casa levando a bandeira. Como sempre alguém da casa tinha que acompanhar o padre, minha mãe me mandava por eu ser filha de Oxalá e quando ele entrava no Peji, entrava de sapato e bisbilhotava tudo, e não podíamos dizer nada. Colocava a mão nas imagens para olhar para dentro do armário, que naquela época era com portas de vidro, fechado a chave e com cortinas na frente.

Tínhamos que esperar o padre com fitas coloridas e tesoura. As fitas nós dávamos para o padre e com a tesoura, ele cortava um pedaço das fitas que estava na bandeira e dava um pedaço para cada uma das pessoas que estavam na casa.

Essa era uma forma de repressão e desrespeito que sofríamos pela igreja católica.

Um outro fato que acontecia, ainda na década de 40, que me lembro era o Judas.

O Judas era uma manifestação popular que acontecia na sexta-feira santa, quando faziam um boneco de pano e o vestiam com roupas de homem. Deixavam ele amarrado num poste na sexta-feira santa e no sábado, às 10h da manhã, rompiam a aleluia ateando fogo no Judas e batiam nele até despedaçar. Pegavam os pedaços em chamas e jogavam nas portas de judeus e batuqueiros.

Uma outra forma de desrespeito pelo qual passávamos era quando tínhamos que fazer uma obrigação, pois tínhamos que tirar a licença no Custume, que era uma delegacia de polícia que ficava na Av. Mauá, essa delegacia tratava de prostitutas, contrabandistas e marginais, lá passávamos o dia de pé esperando para sermos atendidos, nós éramos sempre os últimos, independente da hora que chegássemos lá. Chegávamos pela manhã e saíamos à noite.

No outro dia íamos à Estatística, que era em cima da antiga Confeitaria Rocco, lá era um verdadeiro chá de banco. Quando éramos atendidos, pegavam um livro grande e faziam um interrogatório, por exemplo, tínhamos que dizer qual o tamanho do salão, quantas aberturas tinha, quantas pessoas frequentavam, quantas entravam, quantas saíam, quantas morreram, quantas horas de obrigação e quantos dias seriam.

Aqueles documentos que recebíamos na Estatística e no Custume*, tínhamos que apresenta-los na delegacia, comunicando que haveria uma festa e que esta cumpriria o horário determinado até as 22h.

A grande maioria respeitava o horário, mas aqueles que não respeitavam, acabavam recebendo uma visita da polícia, mas esta não era amistosa, pois quando chegavam, metiam o pé na porta, parando a obrigação, prendendo várias pessoas, e, algumas vezes, levavam até as imagens dos orixás. O abuso de poder era demais.

Quem dava o horário era o custume e tinha que terminar às 22h. O serão era no sábado e a festa no domingo, e se passasse das 22h a obrigação terminava com agês e sinetas, sem o tambor.

Nesses dias em que íamos ao Custume e a Estatística, fazíamos dois Atarês (pimenta da costa) para Xangô, preparávamos esses axés para que Xangô nos ajudasse, para que não nos perguntassem muito e que nos desse o dom da fala, para que disséssemos somente o que fosse preciso.

—————

* O Custume, como diz a mãe, se chamava Delegacia Especial de Costumes.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *