Bará do Mercado

Tradição Religiosa do Mercado Público

Após a leitura de um jornal de Porto Alegre, em maio de 2002, no qual o Dr. Ari Pedro Oro, da UFRGS, falava sobre a tradição religiosa do Mercado Público, e da pá de cal que estavam jogando sobre a história do povo negro de Porto Alegre, referindo-se ao príncipe Custódio, pensei: não vão botar uma pá de cal no Bará e na nossa religião.

O Mercado Público foi projetado pelo Engenheiro Frederico Heydtmann em 1861, construído por escravos e, inaugurado em outubro de 1869.

Príncipe Custódio

Quando José Joaquim de Almeida, nome adotado no Brasil pelo Príncipe Custódio, chegou a Porto Alegre em 1901, o Mercado Público já era considerado um território negro; por isso, plantou no cruzeiro do centro do prédio o Axé do Bará, nosso Bará Agelú Olodiá, para a proteção do lugar e, proteção da comunidade negra que vivia em uma época muito difícil.

O comércio no mercado e em seu entorno era ainda praticado por negros recentemente libertos.

O Príncipe Custódio nasceu em São João de Ajudá, capital do Reino de Daomé, entre Nigéria e Togo, era conhecido como príncipe de São João de Ajudá. O que se sabe sobre a vinda do príncipe Custódio ao Brasil é que nessa época, com a colonização da Grã-Bretanha ao seu país, como garantia de que seu povo não seria massacrado, como foram as populações vizinhas por seus colonizadores, ele teria que sair de suas terras.

No acordo, o governo inglês se comprometeu a lhe pagar um valor mensal em qualquer parte do mundo em que estivesse, através de seus representantes consulares, o que realmente aconteceu.

O Axé do Bará

Os seguidores da religião de matriz africana acreditam que o “axé” é a força que garantiu a sobrevivência do mercado aos incêndios e enchentes ao longo dos anos de sua existência, dando prosperidade e fartura a todos os transeuntes que passam no local, fazendo seus pedidos, ou jogando com fé sete moedas no cruzeiro no centro do mercado.

CEDRAB

Em 6 junho de 2002, na presença de alguns de meus filhos de santo, tendo como redatora a professora e historiadora Ana Lúcia Vidart Silveira, também minha filha de santo, escrevemos em minha casa um projeto para defender o Bará do Mercado. Documento este com o qual mais tarde busquei ajuda de algumas Yás e Babás para levá-lo a diante.

Nessa primeira reunião em minha casa já formei uma comissão, que logo recebeu o nome de Comissão em Defesa das Religiões Afro-Brasileiras (CEDRAB). Sendo a Sociedade Floresta Aurora a primeira entidade a nos apoiar no encaminhamento e protocolo do projeto do Bará.

A partir daí, com o foco na Semana da Consciência Negra organizada pela prefeitura, entrei em contato com os organizadores do evento para a participação de representantes das federações das religiões de matriz afro-brasileiras, religiosos africanistas e comunidade, para dar visibilidade à prática de nossa religiosidade no Estado do Rio Grande do Sul.

Sempre eu questionava as pessoas que faziam parte dos diversos segmentos do movimento negro sobre por que não existia nenhum evento vinculado à religião de matriz africana na Semana da Consciência Negra. Nessa época, fui muito ajudada por Tales da Rosa, que era o coordenador das questões do povo negro na prefeitura de Porto Alegre.

Em agosto do mesmo ano, participei da reunião da 11° Semana da Consciência Negra de Porto Alegre, na qual ficou determinado o 1° Seminário da Comissão em Defesa das Religiões Afro-Brasileiras (CEDRAB), que trataria principalmente, sobre o respeito e preservação da tradição do Bará do Mercado. No seminário, houve acalorados debates com babalorixás, yalorixás e o povo negro, pois, mesmo eles, acreditavam que nada conseguiríamos.

O medo surgiu porque várias federações já haviam tentado algum movimento em prol da preservação deste marco religioso, não obtendo sucesso. Nesse momento fiz questão de enfatizar que, todo o movimento realizado foi de sucesso, pois só estávamos ali graças a todos que trabalharam para isso, antes de nós.

O Projeto

O Projeto “Os Caminhos invisíveis do negro em Porto Alegre: a Tradição do Bará do Mercado” foi o resultado do trabalho em prol da documentação da tradição do Bará do Mercado, nosso patrimônio imaterial. O objetivo era realizar um vídeo etnográfico e um livro com histórico e fotos sobre esta tradição ao Orixá, para dar visibilidade ao patrimônio cultural afro-gaúcho.

Para esta divulgação, foi planejada a distribuição desse trabalho nas escolas através da secretaria Municipal de Educação, para os principais museus regionais, estaduais e para o IPHAN, sendo 30% do material destinado ao patrocinador (PETROBRÁS), 30% destinado às entidades organizadas das religiões afro-brasileiras de Porto Alegre e o restante destinado à Prefeitura Municipal de Porto Alegre.

Após a realização deste projeto, surgiu a possibilidade real de realizarmos o registro do imaterial do Bará e um marco do imaterial do Bará no centro do Mercado Público. A obra do imaterial do Bará foi realizada pelo Projeto Monumenta.

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